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A descrença na Iniciativa Privada

08 dez

Artigo publicado originalmente no Diário do Planalto, Parlatório, p. 2 – 2, 08 dez. 2012.

Sugestão de leitura

Sugestão de leitura

No Brasil, não é difícil identificar a descrença na iniciativa privada, basta conversarmos com quatro ou cinco transeuntes para confirmarmos que os termos “lucro” ou “capitalismo” assumem uma conotação negativa, quando não, um pecado contra a sociedade. O empresário é o sujeito desumano, ganancioso, que só pensa em lucro e nos seus. Esta concepção, para além de uma opinião própria as classes mais baixas da sociedade como algum desavisado possa acreditar, encontra eco inclusive entre figuras ilustres como a presidenta Dilma Rousseff, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso.

O desenvolvimento do país não pode ficar a encargo da iniciativa privada, para o país se desenvolver, o único agente capaz de tal empreendimento é o governo, cabendo a iniciativa privada um papel coadjuvante, quando não, figurante. Na direção contrária, a partir de Murray Rothbard e Ludwig Von Mises, dois nomes da Escola Austríaca de Economia, localizamos na iniciativa privada o agente capaz de protagonizar o desenvolvimento.

Sendo assim, cabe-nos identificar os motivos que levam a grande parte da classe política brasileira a desacreditar no potencial da iniciativa privada e, num segundo momento, elencar os motivos que nos levam, na companhia de Marrauy Rothbard e Ludwig Von Mises a defender que é a iniciativa privada a mais apta para colocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento.

Vejamos agora as causas dessa descrença, podemos elencar elas em quatro ordens:

a) No imaginário da teoria keynesiana o desenvolvimento da econômica passa necessariamente pelo governo, pois é ele quem pensa a economia a longo prazo e as obras estratégicas, que aos olhos da iniciativa privada ou não são lucrativos ou levaram muito tempo para apresentar retorno, pois estes só pensam no lucro a curto prazo. Contra essas críticas há duas respostas, em relação ao tempo e a lucratividade das obras. Não é verdade que a iniciativa privada pensa apenas a curto prazo, como também não é verdade que a iniciativa pública o faz a longo prazo, o motivo da segunda resposta esta nas eleições que acontecem em quatro em quatro anos, onde os governantes são obrigados a apresentar resultados a curto prazo, do contrário, perderiam nas urnas, desta forma, um governante não pode se dar ao luxo de fazer projeções a perder de vista, ele precisa pontualmente apresentar resultados. Igualmente, a iniciativa privada não pensa só a curto prazo, pois, se o empreendimento se apresentar lucrativo, mesmo a longo prazo, a iniciativa priva vai fazê-lo, não obstante, se ele não se apresentar lucrativo, é porque a sociedade (demanda) não vê aquela obra como necessária, entendendo que há outros empreendimentos mais importantes a serem feitos no presente momento.

A exemplo disso podemos citar a construção de uma ponte, que supostamente poderia encurtar um trajeto em 100 km, trajeto este que custa para o motorista 30 minutos, além dos R$ 35,00, incluindo ai as despesas com o combustível e  a avaria do automóvel. E, imaginem também que essa ponte teria um fluxo de 3 mil carros por mês, e, a ponte custaria para ser construída algo em torno de 1 milhão reais, desta forma um empreendedor pode julgar que só valeria apena construir essa ponto se cobrasse R$ 35,00 por caro que passasse na sua ponte, o que no final do ano implicaria num lucro de 260 mil reais. Então esse mesmo empresário pensaria, se ele investisse esse mesmo 1 milhão numa fábrica de caros, ele teria o lucro no final do ano de 500 mil reais, então, ou ele aumenta o valor do pedágio para R$ 45,00, o que implicaria num lucro final de 680 mil reais, ou ele realocará seu 1 milhão de reais na fábrica de caros.

Desta forma, a questão que se coloca é: os motoristas que passam por aquele trajeto preferem economizar 30 minutos e gastar mais R$ 10,00 ou não, se preferem é porque dão mais importância a redução de 30 minutos do que os R$ 10,00 a mais a ser pago, se não preferem, é porque entendem que o empreendimento não vale a pena.

Com essa alegoria de cifras duvidosas espero ter esclarecido porque mesmo um empreendimento a longo prazo, pode interessar ou não a iniciativa privada.

b) A iniciativa privada precisa do governo em momentos de crise ou turbulência para artificialmente o governo estimular a economia, seja disponibilizando crédito ou financiando os rombos. Aqui lembremos a passagem já citada em artigo anterior de John Keynes, que na crise, para estimular a economia, o governo deve fazer um buraco, e não sendo suficiente, deve tampá-lo, fazendo esse investimento tantas vezes quanto for necessário para reestimular o mercado.

Lord Keynes entende que a crise é a redução nos investimentos de bens de capital resultado da queda nos gastos com consumo por parte da população. Neste cenário o governo é indispensável para potencializar o consumo, promovendo a redução da taxas de juros, a emissão de moeda ou o aumento dos gastos públicos. Keynes cai na farsa econômica refutada por Frédéric Bastiat, a qual entende que ao quebrar uma janela, obriga-se o proprietário a consertá-la, fazendo com que ele use o dinheiro que estava parado para movimentar a economia. Bastiat, dispondo da estrutura da teoria do capital, percebe que ao se quebrar uma janela, o proprietário que guardava dinheiro para fazer investimentos em capital mais intensivo (e portanto, mais produtivo) é obrigado a realocar seus recursos em investimentos em bem de consumo (e portanto, menos ou não produtivo), o que promove um “giro” na economia, mas um “giro” menos produtivo do que poderia ter sido se fosse poupado e empreendido futuramente em capital mais intensivo.

c) Agora temos um argumento moral que leva a desconfiança na iniciativa privada, e vejamos se estes argumentos são verdadeiros, ou, como os outros são falsos, a iniciativa privada, segundo esse pensamento só pensa em si mesmas, não estando preocupado com as outras pessoas ou com os mais necessitados, enquanto o governo, pensa na população, tentando diminuir as necessidades sociais. Para esta argumentação é significativo lembrarmos Adam Smith, que fala sobre a ordem espontânea (ou “mão invisível”) do livre mercado, para ele, as pessoas não precisam se preocupar com os outros, basta fazer o melhor possível o que se propõe a fazer, de tal forma que o sapateiro, ao fazer o melhor possível da sua arte de sapataria, ao fazer os melhores sapatos, com o uso dos menores recursos e mão-de-obra, estará embaratecendo tanto quanto possível o preço do seus sapatos, o que dará acesso a mais gente a possibilidade de adquirir um sapato.

d) Um quarto argumento que vem no bojo deste terceiro ponto é o de que a iniciativa privada só pensa em lucro, quando deveríamos ao menos limitá-los. Para estes, devo alertar que o lucro tem uma função primordial na economia, a tal ponto, que em sua ausência, o cálculo econômico se torna impossível. Na ausência do calculo econômico, motivado pela ausência ou limitação do lucro, a classe empresarial perde o mais eficiente dispositivo para detectar as demandas da sociedade, pois, quando alguém esta disposto a pagar um alto valor por um produto ou serviço, ele esta dando um recado, esta dizendo que aquele produto ou serviço é importante e tem demanda a ser atendida, por extensão, a classe empresarial, sabedora dessa informação, vai se empenhar em alocar tantos recursos quanto forem necessários para este setor da economia.

Penso ser essas as quatro ordens de argumentos contra a iniciativa privada, espero em igual medida ter sanado os eventuais equívocos que foram criados em torno da iniciativa privada. Pelo adiantado do artigo, dou por finalizado, mas com a consciência que os pontos acima levantados necessitam de melhor explanação.

Paulo Flavio de Andrade
andrade.pauloflavio@hotmail.com
Acadêmico de Ciências Sociais da Universidade do Contestado (UnC)
Membro do Grupo de Pesquisa em Decentralização e Federalismo – CNPq
Coordenador do Caderno Sala D do curso de Ciências Sociais
 
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Publicado por em 8 de dezembro de 2012 em Notícias

 

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