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100 anos da Guerra do Contestado: retomar o passado para posicionar o presente

28 maio

100 anos da Guerra do Contestado: retomar o passado para posicionar o presente

 Edina Maria Burdzinski

 A história de um dos conflitos de importância ímpar na construção histórica, geográfica, mística, social, econômica e cultural de uma extensa região territorial, localizada entre dois Estados da Federação, Santa Catarina e Paraná, volta a ganhar destaque agora, 100 anos após as primeiras batalhas. Não que a Guerra do Contestado não estivesse sempre presente nas discussões e no imaginário popular, passada de geração para geração ao longo de todos esses anos. Certamente, as propagações das estórias da Guerra ficaram muito mais sob responsabilidade dos vencidos e, sob um enfoque marcado por uma visão mística, vinculada ao relato do caboclo sem terra e sem governo: personagem central da guerra do Contestado. Por outro lado, também não pode ser negado sua marca histórica nas Instituições e patrimônios públicos, políticos ou privados, levando em seus nomes este legado.

É nesse espírito que a Universidade do Contestado promove reflexões, que ao longo dos próximos cinco anos irão debater os fatos e acontecimentos em torno do conflito, procurando “desvendar aspectos que ampliem a compreensão dos 100 anos da guerra”. Fruto de uma construção coletiva de várias Instituições, o projeto tem como objetivo “promover reflexões e motivar a produção, a criatividade e o conhecimento sobre os 100 anos da Guerra do Contestado.”

Sob este pressuposto, o Curso de Ciências Sociais e o Centro Acadêmico André Bazzanella promoveram no dia 19 de maio, um Cine Fórum que se propôs, através da projeção de um filme que retrata parte da guerra, fomentar este importante debate. Neste sentido, foram convidadas personalidades que representam em suas pesquisas e estudos o espírito desse povo. Filhos da Região Contestada e, mais do que isso, preocupados em fazer não apenas o resgate, mas os desdobramentos deste acontecimento em suas vertentes principalmente econômicas e culturais, o professor historiador Fernando Tokarski de Canoinhas, a professora Ms. Soeli Regina da Silva Lima de Três Barras e, o Pe. Dr. Gilberto Tomasi  de Caçador, explanaram respectivamente enfoques históricos, sociais e místicos da guerra.

Onde há algo em disputa, há minimamente dois lados envolvidos. Desse modo, somos chamados a nos posicionar, mesmo que não diretamente envolvidos, mesmo não sendo em nosso tempo, inevitavelmente fazemos opções, criamos simpatias ou apatias por um dos lados. Na Guerra do contestado não foi diferente, embora os motivos e encaminhamentos que levaram ao conflito ainda não estarem suficientemente esclarecidos, os personagens se definem de forma clara e daí parte para a defesa ou para o ataque. Fanáticos religiosos, delírio místico para alguns, como relatam os estudos de Pe. Gilberto Tomasi. Enquadrados dentro de um contexto histórico e político como tantos outros povos, de tantas outras regiões, como abordou o professor Fernando Torkaski. Ou ainda, uma região e um povo que de repente vai se vendo envolto em um movimento histórico chamado Modernidade, que mudaria seus rumos e que viria tirar deste caboclo sua herança cultural, suas terras e suas tradições transportando ao longo de 100 anos as suas conseqüências, principalmente econômicas e que os dados estatísticos demonstram na contemporaneidade, como relatou a professora Soeli.

Seja qual for a nossa opção, discutindo se a versão da história é a de quem massacrou ou foi massacrado, se o Planalto Norte Catarinense e o entorno da região em conflito tornou-se terra de vencedores ou vencidos, devemos elevar a discussão para além de relembrar fatos e acontecimentos históricos. Continuar relegando os infortúnios e dificuldades no que tange aos fatores econômicos e sociais, atribuindo-os como herança de um povo massacrado não contribuirá em nada para o desenvolvimento da região. Talvez muito mais aqui, os 100 anos devem ser oportunizados para este povo “tomar-se como objeto”, como um povo que preserva sua história e resgata seus heróis, mas que tira das lições da guerra pressupostos para seu crescimento. Que faça de suas Instituições os pilares de discussões políticas, de âmbito público, de um povo unido por um passado vitimizado, mas que agora luta por sua autonomia. Que compreenda que cabe grande parte desse papel a educação e, esta região poderá usufruir mais do papel que cabe a Universidade, ao Universo da construção do saber e da importância de aliar o conhecimento técnico ao conhecimento humano, condição si ne qua non para a compreensão desta terra e, do povo desta terra, em que só as discussões para além das burocracias conseguem dar conta de suas peculariedades e pode fazer dessas características o motor de seu crescimento.

 

Edina Maria Burdzinski

Acadêmica de Ciências Sociais da Universidade do Contestado –  Campus Canoinhas

 
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Publicado por em 28 de maio de 2012 em Artigos

 

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